segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Ainda sobre água

Antes disso, quero dizer-vos que mais uma noite de poesia se fez na cidade da Maia, aonde não pude ir por estar no casamento da Inês.
A Inês: sobrinha querida, também teve a sua noite de poesia.
Recitei, no auge da sua festa:

És linda noiva que ri... Boca breve,

Idílio cor-de-rosa... meu deleito!

Sob um vestido branco, como neve,

Há um coração d’ oiro em teu peito.


É fantasia que a tua alma deve

Ao Céu que te abonou honrado jeito.

E nesta vida tão curta... tão breve,

Tu és rainha das noivas... a eito!


O ver o teu sorrir faz bem à gente,

Quando... INÊS... se diz suavemente

nos cheira e sabe a nossa boca a flores.


Tu és sobrinha tão dilecta e querida!

Desejo-te faustosa... longa vida...

Lindos filhos, muitos netos... amores!


Também tive o cuidado de mandar pela NET a minha contribuição para o "Movimentum Arte e Cultura", cujo tema obrigatório era "Vindimas".


Chamam-me vindima. Sei lá quem sou!

Sinto-me prenha de cachos doirados...

Esta gente que por mim entrou,

Vem-mos cortar... ó meus cachos, coitados!


O sol que desponta meu ser “gelou”...

Nada me tira destes meus cuidados.

Cachos decepados!... que triste estou...

Deliciosos sois... oh, torturados!


Sinto do parto a dor que despedaça...

O bálsamo pós parto que se abraça

Num desafogo que se quer beijar.


Extingo-me entre súplicas de pagã

Como qualquer vindima minha irmã...

P´ra renascer feliz no meu lagar.


Maia, 05 de Julho 2009

Leonel Olhero


Agora sim, aqui vos deixo o continuar da viagem para a Guiné.

Já fez 38 anos que lá apareci e hoje fà-los que cheguei a Bula - sítio no mato aonde parei de sonhar.

Como o tempo passa! Chiça!!!


Uige

Sucedia lenta e perfeita a viagem e no final do dia seguinte, estava quase o sol a pôr-se, deitei com curiosidade os descontentes olhos ao mar e nada mais vi a não ser muita água e tanto céu e senti-me nauseado porém, porque era o furriel mais novato da minha Unidade fui escalado para ir de serviço durante a viagem e não tive tempo para puder enjoar. Aconteceu que no navio passou a haver polícia de bordo e um major, um alferes e dois furriéis, eu era um destes, íamos cada qual com dois primeiros-cabos em turnos de seis horas patrulhando todo o vapor. Viajávamos armados e precavidos para impingir respeito àquelas mais de três milhares de estigmatizadas almas naquele inferno amontoadas. Ali navegavam milheiros de cabeças errantes e muitos militares, uma vez a bordo, mais não fizeram do que jogar à lerpa e a dinheiro.

Milhares de camas empilhadas, onde deviam descansar outros tantos soldados, encontravam-se em dois porões que dias depois estavam infestados de insectos, com lixo por tudo quanto era sítio, latas de conserva e maços de tabaco vazios, papéis e beatas arremessados lá pelo chão e nos cantos mais pardos até trampa havia. Os viciados não deixavam os porões nem para ir às casas de banho. Aqueles imbecis aboloreciam sem ver a luz do sol durante dias consecutivos e nem subiam para as refeições; comiam o que outros lhes mercavam na cantina. Alguns daqueles palermas, que perderam no jogo todo o dinheiro e haveres, tinham sentinelas que os avisavam quando a polícia de bordo aparecia ao fundo do incomensurável corredor. Porém, nós fazíamos vista grossa, não fosse o pessoal amotinar-se. Sabíamos que ali navegava filho de muita mãe e por isso, apesar de termos recebido ordens para confiscar cartas, dinheiro e identificar os prevaricadores, só lhes evidenciávamos um receio, que eram as pontas de cigarro acesas que aqueles depravados deitassem para o chão causando um incêndio a bordo. Movidos por tal medo, continuadamente lhes lembrávamos para que apagassem as priscas; não fossemos acabar nos peixinhos.

Os dias iam tão tristes quanto eu, enquanto mais aqueles porões tresandavam a merda e mijo. Um cheiro nauseabundo e pestilento impregnava aquele ar que se tornava cada vez mais repugnante à medida que para nós se abeirava o bafo do Equador. Muitos almejavam chegar a África e lá não havia de cheirar tão mal.

Uma placa bem pintada e suspensa numa corrente de ferro aludia não ser permitido o acesso para além dela, a não ser à tripulação. Saltei-a estando lá o comandante do navio; abeirei-me dele e com positiva eloquência revelei-me prevaricador, pretendia igualmente alargar os meus horizontes, disse-lhe gracejando. Simpático e também rindo, o oficial ripostou que no navio iam milhares e um só a infringir não era relevante. Ajuntou mesmo que podia ir ali quando bem entendesse. Assim o fiz por ocasiões contínuas numa beata violação e demorei-me por ali com um sempre olhar distante, para lá da proa naquele horizonte humedecido. Daquele soberbo ponto sulquei infindáveis milhas deambulando os meus amargosos olhares pela imensurabilidade do oceano. Vi enormes cardumes de peixes, literalmente voando à frente do navio. Deliciei-me com a companhia de alegres golfinhos que nos precediam com jocosas brincadeiras e, pela sua maneira divertida de proceder, antevi que não iam para a Guiné.

Naquele insípido retiro, desprezado, abandonava-me aos mais desconsolados pensamentos, mas em vez de chamar a morte em meu socorro, sentia-me muito mísero, foi mais forte o amor à vida que me levou a querer prolongar a existência e se possível até aos cem anos. Em retalhos de noites... que nostalgia!... encostado à chaminé do navio, fui transportando comigo o luar. O silêncio caía-me em gotas enquanto rebuscava na vastidão do oceano respostas para aquela desconsolada vida. Era naquele gueto, já sem sombras do sol-pôr, que pensava no meu carrasco e amargurado fim e, enquanto o mar persistia resignado e sereno, o desgraçado e pateta barco, que sulcou atilado, passou a andar louco e aos ziguezagues. Podíamos ver no dorso das salgadas águas e na espuma branca que fazíamos as curvas que então pintávamos.

Uma tarde um, junto da chaminé, disse que era estratégia para iludir um suposto submarino russo e assim poder-se-ia evitar uma colisão... “fruto do acaso”... Pude enxergar que a minha má estrela tinha definido o puto do meu destino. O espírito maligno, abominável criatura que me queria mal tinha, com desdém, decerto tudo combinado, mas se me queria tramar havia de ir para África comigo... para o inferno!


Cabo Verde

Ziguezagueando, no Domingo avistámos terra e detemo-nos ao largo da ilha do Sal e no dia seguinte fundeamos ao largo da cidade da Praia.

Na manhã do último de Agosto ancorámos na ilha de São Vicente e alguns centos fomos a terra. Lá, vi com os estes meus olhos quanta miséria maltratava aquela gente. Vi o que nunca pensei ser possível... duas cabras deambulavam tristes pela rua comendo papel de um saco se cimento que se tinha rasgado e adiante duas martirizadas mulheres, que iam no encalço de militares, aguardaram que um deles atirasse ao chão a casca da banana para sobre ela se arrojarem, repartindo-a e devorando-a...

Que foi feito do meu sonhar?!... tudo me fugiu... tudo me morreu...

Fiquei agoniado e triste com tão horrendas visões, mas o barco que as não enxergou, ao anoitecer teimou em nos levar até ao nosso perigoso destino.

...

Em África o sol morreu, o mar vestiu-se de luto, a triste noite caiu - mas não se magoou - e nós víamos um céu translúcido e cintilado, e lá ao longe pestanejavam-nos as pálidas e mortiças luzes de Bissau.

Ainda ao largo, estafado e farto de tanta salgada água, o navio parou as máquinas e foi dormir. Envolveu-nos a serenidade mais completa que é exequível imaginar; senti o cáustico golpe do silêncio, desci ao camarote, a minha alma ajoelhou-se desalentada e deixei-me desanimar arrastadamente num granjeado sono.

Na manhã seguinte com os meus penitentes olhos espreitei pela escotilha e vi que o sol acordava pálido e se elevava poucos graus acima do horizonte, enquanto a minha descontente alma mergulhava numa pasmaceira muda. Sem descanso, por sobre aquele mar de azeite ameigado pela brisa quente, os meus olhares percorriam, para lá e para cá, a distância que nos desapegava de Bissau e assim se animava mal aquele dia de sábado.

Às dez da manhã, torturado e não podendo deixar de sentir a paciência da minha angústia, preparei-me para o desembarque. Carreguei os meus haveres, botei o pé naquela incendiada terra e senti a violência de toda aquela temperatura deplorável. O sol iluminava-me vivamente, o calor húmido tornava o ar parado e pegajoso e difícil de respirar; as endemoninhadas roupas colavam-se à minha pele e a transpiração era incómoda e constante.

...

Cheguei a África, terra de sol!


Um abraço a quem me lê. O meu obrigado público a quem me vem seguindo e ainda a quem me envia mensagens de carinho e ânimo, para aqui continuar com as minhas memórias.

Obrigado àquela seguidora que, inclusivé, manda beijinhos para os meus netos.

Sei que há forma diferente de fazer estes agradecimentos, só que as minhas noções de informática não deixam que os faça de outra maneira.

Àquele que me diz que, também por aqueles dias, viajou no Uige para a Guiné, um abraço especial por ter regressado. Todos sabemos que muitos o não fizeram e não foi por vontade própria que assim agiram. Coitados!

Até breve!




quinta-feira, 27 de agosto de 2009

As desculpas do costume e o embarque para a Guiné...

Meus amigos:


Uma vez mais as desculpas do costume... Não tenho emenda e deixei que longos dias se passassem sem que tenha tido convosco uma conversa. Sou incorrigível, mas desta vez tendes que me perdoar. Acontece que tenho comigo a minha “princesa” e o seu irmão que fez um aninho no dia dezasseis.

Ela é a Filipa, a minha neta mais velha... e segundo ela, já muito “grande”. Fará no mês próximo três anitos... o mano é bem mais novo...

Com eles cá em casa tem sido um grande desassossego e não me resta tempo que não seja para ser avô a tempo inteiro, o que até é óptimo.

Fez ontem anos que embarquei para a Guiné.

Não passo sem vos deixar aqui um enxerto do livro da minha vida militar e do qual tenho vindo a falar-vos:


"O embarque

No Regimento de Cavalaria nº. 7, na Calçada da Ajuda, em Lisboa, dormi na véspera do embarque, não fosse acordar tarde e falhá-lo era uma pena!

Lisboa 25 de Agosto, quarta-feira

O sol estava gracioso, soalheiro e muito quente e o dia tão cristalino, límpido e puro pressagiava-me um doirado e fino areal. Apetecia-me ir para a praia, mas havia um navio ancorado lá ao longe à espera para me enrascar. “Uige”, assim se chamava o gajo e até tinha pintado o nome no casco para que se lesse. Era enorme, mas não era grande coisa. O filho da mãe tinha uma colossal escada abaixada para o cais e era por ali que os meus olhos ateus subiam, à medida que a muita tropa para lá ia sendo indignamente atafulhada.

Amargava pacientemente num amontoado humano e gemia de malas nas mãos e mochila às costas pela minha vez de trepar, enquanto lá no alto, na proa e na ré, a bombordo e a estibordo havia já mil e muitos soldados. Centenas iam-se alteando em fila e o baixel presunçoso, altaneiro e empertigado pelo seu desempenho, na quietude das águas salgadas, com prosápia baloiçava-se todo. Filho da p... , vaidoso e arrogante, se soubesses o que nos vais fazer, por decência, pejo ou vergonha metias água e mergulhavas fundo, magiquei, mas o vapor não se embaçou com os meus malcriados pensamentos e foi incessantemente consentindo em receber sempre mais gente no seu, “eu”.

Fui dos últimos a calcar-lhe com asco e muita raiva o convés.

Estupor! Não tarda que seja meio-dia e agora tens-me cá, cogitei, enquanto duas insubmissas lágrimas me escapavam vadias pelo canto do olho; todavia tinha dentro de mim a certeza de que em todas as lágrimas jaz uma esperança e não deixei ali morrer a minha.

Depois de mim só parcas dezenas subiram e com eles também a enorme escada que nos aferrolhou a p... da saída. Arrumamo-nos o melhor que pudemos e éramos milhares, enquanto lá em baixo no Tejo o sol castigador arrebatava reflexos de prata no sossego das águas serenas por onde, com preguiça, navegavam fragatas.

Foram as amarras tiradas e todo o navio estremeceu, acaso de comiseração por todos nós; rugiu fundo no seu âmago e a sua hélice circuitou com talento e um brutal poder. As águas ao redor moveram-se agigantando-se e quebrando e espumando de encontro ao embarcadoiro e o bruto e rude começou fugindo connosco, passava do meio-dia no meu Cauny.

Cá vamos nós, pensei e recomendei-me a Deus ao principiar aquela triste navegação.

No Cais, eram imensos os que nos viam partir agitando lenços brancos em despedida enquanto no vapor íamos sendo surripiados à nossa liberdade; também dali eram milhares os lenços bulindo. Cá e lá, no batel e no porto eram em dobro os olhos alagados por tão desconsoladas lágrimas, mas o estupor do barco não se estonteou com isso e rumou certeiro em direcção à barra."

...

Um abraço meus caros e prometo que em breve vos falarei do resto daquela viagem.


quarta-feira, 29 de julho de 2009

Aos meus leitores

Observei agora que não vi nada... e assim é que é falar verdade.

No meu Blog há comentários e disso eu ainda não me tinha tão-pouco apercebido.

Do caso, acabo de ser avisado pela minha filha que, também ali comentando, me prediz umas lições de internet... mas ela vive a 250 quilómetros do pai... e eu que bem preciso!

O computador apenas me tem servido para ortografar desde que, há muitos anos, decidi reformar a minha velha máquina de escrever.

Tudo o mais ainda me é algo complicado.

A quem me segue e, em especial a quem teve a delicadeza dos comentários, dedico o soneto sequente.

Abraço.


Caro leitor...

De Camões não tenho a celebridade

E de Florbela não herdei as prendas.

Tenho cá dentro a necessidade:

“Fazer poemas” como quem faz rendas...



Do Bocage não tenho a agilidade.

Do Gil nem histórias, crónicas ou lendas.

Tenho um coração cheio de bondade...

Ó caro leitor, quero que me entendas!



Vou versejando, faço quanto posso...

Poema nascido, é mais um... “nosso!”...

Porquanto, és razão do meu escrever.



No pleito diário... enlouquecido!

Só penso em ti, meu amigo querido...

Eu não quero que deixes de me ler.



Leonel Olhero



quarta-feira, 22 de julho de 2009

Recordações

Amigos leitores:

Caríssimos seguidores:


De novo “à carga”, como se dizia na vida militar e em cavalaria, a minha arma como é sabido.


Este mês é-me de recordações...

Se fosse viva, a minha mãe fazia anos.

Um senhor, que foi meu comandante no Esquadrão de Bula – Guiné - fez anos num destes dias e daí o meu telefonema do Porto para o agora Coronel na reserva Henrique de Sousa, que, graças a Deus, está de saúde lá por Lisboa.

Também num dia destes o meu filho primeiro fez anos de casado e me metamorfoseou num afectuoso sogro, julgo.

Casei também num mês de Julho ... e não foi no ano findo...

Pelos trinta e muitos anos de casado ganhei já o purgatório, estou certo. Também a minha mulher ganhou o céu pelo mesmo “pecado”, tenho a absoluta certeza.

Hoje passei os olhos pelo diário que escrevi durante a vida militar e no meu livro, que apenas aguarda edição, reli que, naquele já longínquo ano de 1973, bem perto de mim, um camarada ficou estropiado por haver uma mina anti-pessoal no caminho da sua vida.

Não resisto em colocar aqui aquele bocadinho de livro.

Ei-lo!

Bula, 10 de Julho

Reunimos com o comando. O campo de minas tinha que ser entregue limpo ao novo Batalhão que vinha. As panhards iam estar próximas dos sapadores e a segurança afastada era da conta do Batalhão.

Bula, 14 de Julho, sexta-feira

Manhã inesquecível, um sol inflamado aquecia aquele lugar tristonho com atractivos que eram os de um vulgar campo de minas e vi que o furriel sapador Santos, algarvio, de vivos olhos e doido por jogar futebol, se detinha estático e resistia num abafado silêncio, de tal modo que não se lhe ouvia nem o respirar.

Do alto da torre do carro de combate, onde me empoleirava, e o emudecimento do Santos me assustava, recomendei-lhe calma.

A p... está aqui só que a não encontro, disse.

Num misto de companheirismo senti-me abarcado com ele naquela atmosfera opressiva, naquela tensão nervosa... numa espécie de um irracional desassossego e, logo depois, ouviu-se um bruto estouro.

À nossa volta, com amargura, o ar agitou-se e o amigo tombou num uivo de dor. O sopro arrepanhou-lhe a perna direita... com que fizera tão bonitos golos (!).

Que ultraje! Vi sangue devastado. Que horror! Por onde andava Deus que O não vi naquele instante?!

Um soldado maqueiro acudiu cegamente com o garrote e só por sorte não pisou uma mina também.

O alferes, que pouco tinha andado além da borda da estrada e era já por si amarelado, ficou branco e, meio desfalecido, conseguiu ao menos sentar-se na valeta e de cabeça entre as mãos chorava desditosamente enquanto toda a terra emudeceu...

Uma avioneta veio.

Quando chegámos à pista de aviação – uma dúzia de quilómetros depois - já éramos ali esperados pelo comando. O coronel dirigiu palavras de conforto ao malogrado e da boca deste ouvi: “nada é que não esperasse. Sinto pena por mais não puder jogar futebol, mas não fique triste, meu coronel”.

Amigos:

Por agora fico por aqui e sem mais palavras.

Um abraço e até breve.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Palavra de poeta!

Meus caros senhores...
leitores... seguidores e outros.
Resumindo: meus amigos!
Não vos exibo agora a minha cara porque lhe iríeis ver desenhada uma desmedida vergonha por me ter escondido num silêncio escandaloso de três meses.
Não. Não foi malandrice minha. Foi tão-só desleixo e agora me dou conta de que o tempo afinal ainda passa mais veloz do que aquilo que supomos.
Também com timidez vos digo que não sou esperto suficiente para as novas tecnologias e daí ter que sofrer... repetidamente... explicações dos meus filhos para puder navegar e eles nem sempre têm a paciência... e seria óptimo se tivessem comigo a que com eles tive.
Era bom, não era?!...
Teriam que me carregar ao colo. Mudar-me fraldas. Arranjar-me o leitinho. Estudar comigo. Brincar comigo e até... carregando-me às costas... fingir de burro.
Sim, é verdade que fiz de tudo. Qual foi o pai que o não fez?!
... E quem foi que disse que eu preciso que me mudem fraldas ou que gosto de biberão?
Alguém falou (ou escreveu) que eu preciso de estudar? Se preciso... e todos precisamos para nos irmos actualizando constantemente, verdade é que não me apetece ou, pelo menos nem sempre.
Quanto ao brincar, é coisa que até gosto, mas não tem que ser forçosamente com os meus filhos, que já não estão para me aturar e agora o que mais lhes dá jeito é que eu brinque com os filhos deles, o que até me dá prazer. São os meus netos, não é verdade?
E daqui a uns dias lá ando eu de novo a fazer de burro...
...Outra vez?!
...
“Ai, o nabo não sabe navegar na NET!” ... agora ouvi você dizer.
(Está bem! se não o disse, pensou... que eu bem sei, mas está desculpado).

Bom! Para ser sincero também não foi só por isso.
Aconteceu... acontece... e espero que continue a acontecer, que me devotei à poesia e tenho andado de volta de um livro de sonetos que no meu íntimo já “editei” e, vai daí, já o imprimi e reimprimi - efectivamente e vezes sem conta - . Cortei-lhe e recortei-lhe folhas e perdi tempos infinitos com aquelas suas rimas e descuidei-me com o meu Blog.
Fui também a algumas tertúlias de poesia.
Do fundo escuro da minha “gaveta” retirei e declamei alguns sonetos que aqui ponho a nu:


Tempestades (tema obrigatório)

Relâmpagos doidos riscam nos céus!
Trovões carregam trovões por resposta!
Anjos travessos, crianças de Deus,
Bolem, cadeiras tombam e Deus não gosta...

Um anjo traquina brinca com isqueiro
Que outra faísca relâmpago faz.
Aquele anjo lindo e tão verdadeiro
Só faz disparates... mas que rapaz!!!

Um diferente anjinho, que tão bem vi,
Mal-educado, brincou... fez chichi...
Que em feitio de chuva nos veio ter.

É por isso que, com tantas maldades,
Nos caiem lá do alto as tempestades...
E agora, que se lhe há de fazer?!...



À minha mulher (tema livre)

No meu corpo mora a poesia,
A loucura, a arte e o prazer.
Dor que me consome noite e dia
Numa ânsia de amar o meu escrever.

No meu corpo mora uma paixão
Que me aflige e gasta até às entranhas...
Me escraviza; me quebra o coração...
Noites que não durmo, e são tamanhas!!!

No meu corpo mora o teu amor...
No meu jardim tu és a minha flor.
No teu corpo quero eu viver.

Assim, eu e tu já não somos dois,
Nossa vida tem estrelas... outros sóis!...
No teu jardim eu quero florescer!



Maio, maduro Maio (tema obrigatório)

Num coração sofrido e depravado
Guardo-te Maio, tão resplandecente.
Minha alma vê em ti um mês sagrado...
Que aproveita que exista um mês diferente.

Maio, maduro Maio ! - Tão nobre hino! -
De rosas coberto e engalanado.
De pássaros vestido - fugaz destino! -
Que entoam poemas por todo o lado.

Cucos, nas tuas manhãs deslumbradas
Que em mística hipnose nascem sagradas,
Cantam doces notas... estonteantes...

E eu, ó Maio, pasmo embriagado
Pelo teu incenso assim perfumado,
Que num feitiço impele tantos amantes!



À Ana (tema livre)

Foi tão triste a noite em que não dormi...
Que néscio sono de mim nada quis.
Num desespero louco, então, fugi.
Numa praia longe... fui tão feliz!

Cobriu-me o luar na noite tão fria.
Sonhei lindo!... matei até desejos...
Mais tarde acordei... o sol se via...
Cingi garota que me encheu de beijos.

Com afecto, perguntei quem era.
Refutou rindo: “sou a Primavera”.
Minha linda!...você, não me engana...

Disse-lhe ao ouvido, jogando eu.
Deu-me beijos... muitos... e respondeu:
-Pois não, só brincava... eu sou Ana.



Espigas (tema obrigatório)

Queria tanto ao teu colo voltar!...
Mãe, que te foste para luto meu.
Ser pequerrucho... de novo brincar
Com a mãe que tive e que Deus me deu.

Queria tanto contigo passar
Noites de histórias com estrelas no céu.
Rir contigo... ou contigo cantar
A nossa canção que jamais morreu.

Queria-te tanto, para te olhar
Na nossa casinha... tão doce lar...
Pegar nas tuas mãos magras... formosas!

Queria tanto ter-te comigo...
Catar no campo espigas de trigo.
Colher p’ra ti braçadas de rosas.



Esfolhadas (tema livre)

Na minha aldeia, noites de esfolhadas
Eram lindas e cheias de magia!
Iam rapazes... todos às molhadas...
Ter com as moças, que por lá havia.

Viam-se espigas em mãos atiladas,
Que punham a nu o grão, com mestria.
Cantavam raparigas... com risadas...
Como se fossem... começar o dia.

Encobriam fruta... Beijos negavam,
Aos rapazes que lhos mendigavam...
Mas abonavam-nos... que eu bem o sei:

Às escondidas... era aos namorados...
E às avistas, aos afortunados...
S’ acaso encontrassem um milho rei.


Depois de tudo isto deixo-lhe, meu caro, uma promessa: “ não vou repetir outro silêncio longo quanto este”. Palavra de poeta!
Para ti, que andas espreitando este blog, deixo um desafio: "Segue-me e dá-me a tua opinião". Aceito críticas desde que sejam construtivas. Isto serve para ti António Vitor C.C. (ex-furriel das Panhards de Bula que lá de longe - Angola - me andas seguindo "mas escondido". Um abraço especial para ti.
Um abraço e até breve.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Poemas aos meus chefes

Bom dia!

Hoje o meu dilecto amigo António faz anos.

Como sempre, desde que deixámos de ser colegas, vai a caminho de uma dúzia de anos, ele recebe um telefonema meu neste dia. Não falha!

O senhor doutor no BPI, mais conhecido por António “grande” entre os amigos, hoje espicaçou-me...

Ele já se deleitava com os meus versos, quando ambos arruinávamos os nossos olhos na secção de Recolha de Dados, no então Banco Borges & Irmão e não posso esquecer o quanto por ele fui defendido numa reunião em que me quiseram puxar as orelhas, no já longínquo dia 20 de Maio de 1987...

como o tempo passa!

Naquela época “descobri” que o chefe de divisão, o senhor Soares e o subchefe de secção, o senhor Batista, eram António e João, respectivamente.

Quanto ao chefe de secção, esse era Pedro, que Deus lá tem, e por tal nome era tratado e, vai daí, cá o rapaz viu neles os três santinhos populares...

Fiz uns versos, que se reproduziram de forma inconcebível e fotocópias, de mão em mão, correram o Banco... só os três desconheciam...

O já saudoso Joaquim de Sousa, o amigo Artur Enes e o Pedro Sá, directores no Processamento, não se coibiam de tratá-los por “santinhos” e, antes que viessem a desmontar a intriga, dias depois eu mesmo lhes facultei aqueles e, afora o João, não gostaram.

Dias mais, a polémica reunião com todos os colegas e chefias. Vi-me grego e dos poucos a erguer a voz em minha defesa foi o “grande” António, além do meu amigo “S. João” que viu naquilo arte e não sátira.

Pelo alarido, só por isso, guardei os versos e eu tinha feito até ali muitas dezenas, que nunca conservei.

Foi também a contar daquele dia que passei a preservar todos os demais e hoje tenho cerca de meio milhar deles.

Bem sei que muitos não têm a beleza de outros mas, guardei-os a todos e os ditos ponho-os à luz; depois de terem andado escondidos nos bolsos de "meninos" e nas carteiras de tantas "meninas", meus colegas.


Aos meus chefes:


Foi Santo António comprar,

com o amigo S. João,

umas cartas de jogar,

p'ra fazer grande serão.


S. João, que é divertido,

Mostrou-se muito interessado

mas, que tinha resolvido;

Queria Pedro convidado.


S. Pedro chegou, por fim,

vinha alegre e mui feliz;

Convidou-me então a mim

mas, aí eu fui juiz.


-Pedro, cartas?! Isso não.

Eu vou já, mas é p'rá farra!...

vem daí, caro João

e trás a tua guitarra.


Outro remédio não há,

disse Pedro com fulgor.

ó António, anda lá!

não te esqueças do tambor.


Fomos os quatro p'rá rua,

com foguetes a estoirar.

Vieram estrelas e lua...

muito povo p'ra brincar.


Noite adentro foi bailar

na noite de S. João.

No fogo fomos queimar

o baralho, pois então!


Porto, 20 de Maio 1987

Leonel Olhero

terça-feira, 10 de março de 2009

Noites de poesia

Cá estou eu!

Que ninguém pense que me esqueci de vir à minha escrita. Não, não é o caso até porque a minha história há muito que está feita.

Acontece que nestes dias de ausência me andei a divertir com a poesia que fui escondendo na gaveta durante algumas décadas.

Pela primeira vez li em público, no salão nobre da Junta de Freguesia de Vermoim, Maia, poemas da minha autoria e já repeti o feito voltando ali e quero mais...

Comecei por ler o último que tinha feito. O que possivelmente será mais lido. Quem sabe! Talvez venha um dia a ficar mais exposto.

Ei-lo:

 

Para a minha lápide:

 

Aqui jaz Leonel, homem excelente,

aquele que nesta vida bem gozou.

Comeu, bebeu... brincou... não foi diferente;

comprou casas, carros; tudo pagou.

 

Abalou deste mundo satisfeito,

levou cigarros e vinho à mistura.

Deixa neste mundo amigos, do peito.

Agora está no Céu... mas que ternura!

 

Descansa-lhe o corpo frio neste Chão.

Do Alto ele olha para aqui, sorrindo

e deixa-te um recado, ó meu irmão:

“também tu serás um dia bem-vindo”.

 

Ermesinde, 4 de Fevereiro 2009

Leonel Olhero

 

Na segunda vez li, já no novo e bonito edifício daquela autarquia os que vos deixo.

 

Tema obrigatório:

 

Chuva

 

São deleitosas lágrimas de um deus

banhando pátrias, almas e jardins;

Pérolas lindas tombando dos céus

varridas por Anjos e Querubins.

 

Deus distraído chorando um amor

que por acaso não teve... ou não quis.

Orvalho aprazível beijando flor...

mas, aquele bom deus porfia feliz.

 

É doce pranto divino caindo...

O mundo molhado fica tão lindo

em contínuos poemas de alegria!

 

Enquanto deus chora o amor errante

tudo no mundo se torna diferente...

tudo é fascínio! tudo é magia!

 

Ermesinde, 18 de Fevereiro 2009

Leonel Olhero

 

“Lido na noite de poesia de Vermoim, 7 de Março 2009”

 

Li ainda:

 

 

Chorando

 

Eu choro e tenho razão,

ficam-me as faces molhadas,

crianças morrem sem pão...

os ricos em jantaradas.

 

Este mundo desigual

para tantos mundo cão,

a muitos trata-os os mal

recusando o simples pão.

 

Ó mundo tão corriqueiro

proteges quem tem dinheiro,

és só terra, lixo, pó.

 

És mundo no fim do mundo,

és tão porco, sujo, imundo...

és mundo que metes dó.

 

Ermesinde, 10 de Novembro 1987

Leonel Olhero

 

(21 anos depois de ter nascido viu a luz do dia)

 

 

Amigo, volte aqui.

Eu também prometo tornar à história da Guiné.

Um abraço, e já agora, por que não seguir o meu blog?!